Homenagem a Maria e Zé Cláudio

Maria do Espírito Santo, minha irmã, foi assassinada em 24 de maio de 2011 junto de seu marido, José  Claudio Ribeiro da Silva. Dez anos após essa tragédia, criei essa obra para o “Prêmio de Artes e Ecologia José Cláudio e Maria”, promovido pela Universidade Federal da Bahia, junto da Universidade de Sussex e do Instituto Zé Claudio e Maria. E esse é meu artesanato, feito em tábua de madeira, semente e cascas de semente da Amazônia. 

Nessa obra uso sementes e casca nas bordas, e no fundo trago de semente de bacaba. Com elas criei um coração, que significa Zé Claudio, que gostava muito de bacaba, uma palmeira da Amazônia. Ele extraia os cachos da bacaba e deles fazia um vinho. Ao lado, no outro coração, é a Maria, minha irmã, e simboliza a luta dela. Ela gostava muito dessa semente, o pessoal diz que é semente pau-Brasil, mas não é, é outra semente. Estão ao lado, Maria e Zé Claudio, Zé Claudio e Maria, juntos. Eles nunca se separaram, até na morte deles, sempre estiveram juntos.

Trago também a representação da castanha-do-Pará, que eles tanto gostava e preservava, coletava, extraía o leite da castanha para comer, fazia o óleo, farinha, e tantas outras variedades. Entre as castanhas está o pau titica, que é um cipó. Zé Claudio usava esse cipó para fazer paneiro, abano, cesto, entre tantas outras coisas. A semente que a Maria gostava, essa semente vermelha, tão bonita, ela usava para furar e fazer artesanato. Na obra também tem o açaí em natura e o açaí transformado para fazer artesanato, pulseiras, coisas que minha irmã também fazia. 

Infelizmente, a luta deles foi interrompida brutalmente. Embaixo na obra, essa cruz simboliza os 10 anos que eles morreram. Mas a luta continua, porque brotou essa semente, que significa a vida de novo de pessoas que estamos reerguendo, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que tanto ajudou, e ajuda, e o Grupo das Trabalhadoras Extrativistas (GTAE), que nos erguemos. A Maria, minha irmã, quando estava viva, falou: Laisa, nós vamos criar o grupo GTAE com as minhas cinzas, pois vai ter o conflito, mas o conflito vai passar e nós vamos criar o grupo das mulheres GTAE. Foi pelas cinzas, mas foi pelo sangue derramado, que é muito mais forte, e dele nós reerguemos o grupo GTAE. HOje Claudecir, irmã de Zé Claudio, esta na casa junto de Luisinho, cuidando, junto de Claudelice, essa mulher maravilhosa que tem tanta força, seguem cuidando do lote, da reserva, das ideias, com companheiras e companheiros que se somaram na luta. 

A vida continua, a luta continua. Essa é a minha interpretação.

Laisa Santos Sampaio

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Artista plástica, ambientalista, extrativista, educadora popular, liderança do Grupo de de Trabalhadoras Artesanais e Extrativistas (GTAE) no Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta Piranheira