Povo Pitaguary

Pesquisadora: Daniela Alves de Araújo 

Entrevistado: Madson Pitaguary

Data: 21/09/2020

Esta pesquisa está sendo feita por estudantes indígenas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), junto com estudantes indígenas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em parceria com a Universidade de Sussex, da Inglaterra. Ela é parte do projeto Mapeamento das Violações aos Direitos Indígenas no Nordeste do Brasil. Seu principal objetivo é saber como tem sido o período marcado pela pandemia do novo coronavírus para as populações indígenas do Ceará, atentando-se às medidas de prevenção tomadas pelas aldeias, ao número de casos e aos principais impactos nas comunidades. Esta entrevista foi realizada em troca de mensagens de texto pelo WhatsApp.

1. Qual seu nome? 

Madson Vieira da Silva.

2. Qual sua idade?

25 anos.

3. Qual seu povo e município?

Pitaguary, de Maracanaú (Ceará).

4. Na sua aldeia, ocorreu algum caso de Covid-19?

Sim.

5. Quais foram os protocolos de segurança que a aldeia tomou?

Isolamento social, uso e distribuição de máscaras, e distribuição de álcool em gel.

6. Como foi para você, como indígena, viver este momento tão delicado?

Para mim, foi bastante complicado, tanto em relação ao isolamento quanto ao uso de máscara. Creio que foi assim para todos, porque isso tudo foi novo, nunca tínhamos passado por uma pandemia. Mesmo que os decretos governamentais sejam voltados para todos, muita gente não respeita o isolamento e as medidas de prevenção à Covid-19.

7. Você foi afetado de alguma forma? Se sim, quais foram os principais impactos?

Sim, fui. O impacto foi em relação ao trabalho, tivemos que inovar e trabalhar à distância.

8. Você perdeu algum parente ou conhecido para a Covid-19?

Sim, perdi um amigo. Creio que todos viram ou ouviram sobre o caso do senhor Francisco Pitaguary, tronco velho e universitário, aprovado no mesmo edital que eu [seleção para a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab)].

9. Essa questão da escola, como está sendo? E a faculdade?

Estamos trabalhando de acordo com a orientação da Crede [Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação], com o uso de várias ferramentas, como WhatsApp, Google Formulário, Google Sala de Aula, YouTube etc. A faculdade também está ocorrendo de forma remota, com o uso do Google Meet.

10. A respeito dos rituais da aldeia, vocês pararam de vez? Como está sendo?

Em relação aos rituais, o toré aconteceu duas vezes, somente na aldeia da Monguba. Já a umbanda, não sei quantas vezes aconteceu.

Entrevistado: José Benicio Silva Nascimento

Data: 07/09/2020

José Benício Silva Nascimento, conhecido como Benício Pitaguary, tem 27 anos e é indígena do povo Pitaguary, da aldeia Monguba, município de Pacatuba (CE). Graduado em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é liderança jovem Pitaguary, articulador do Museu Indígena Pitaguary (MIP). Benício é comunicador da Mídia Índia e faz parte do Conselho de Cultura do Estado do Ceará, assim como do Comitê Gestor de Políticas Culturais Indígena do Ceará. Ele  é artista plástico, especialista em grafismos indígenas, e desenvolve várias atividades relacionadas a esse tema, como palestras e oficinas em aldeias indígenas e também em universidades dentro e fora do Brasil. Benício contou que, em sua comunidade, houve casos positivos de Covid-19. Como forma de conscientização, a comunidade, de início, realizou seu próprio lockdown, impedindo a visita de não indígenas à área e fazendo a higienização dos carros dos moradores. Eles fizeram campanha de produção de máscaras e arrecadação de cestas básicas para as famílias que tiveram sua renda afetada, e também fizeram campanha de conscientização sobre higiene e isolamento social. Para ele, a situação tem sido muito preocupante, por ser atípica e muito nova. Benício concluiu a graduação há pouco tempo e tinha planos de fazer mestrado no exterior; com a pandemia, terá que esperar. “Eu ia fazer mestrado na Espanha, agora tenho que esperar o próximo edital.” Ele contou ainda que ficou muito preocupado com as lideranças mais velhas, que são os livros vivos da aldeia. De acordo com ele, todos os membros da aldeia foram afetados, pois, além das alterações nas programações tradicionais do povo, estudos e projetos também foram adiados. A venda de artesanato, que era uma forma de obtenção de renda importante na comunidade, hoje está sendo feita apenas virtualmente. Com esta nova realidade, os povos indígenas tiveram que se adequar à tecnologia. Benício concluiu a entrevista dizendo que perdeu alguns amigos para a Covid-19, mas nenhum parente.

Questionário:

  1. Qual seu nome? 
  2. Qual sua idade?
  3. Qual seu povo, aldeia e município?
  4. Na sua aldeia, ocorreu algum caso de Covid-19?
  5. Quais foram os protocolos de segurança que a aldeia adotou?
  6. Como tem sido para você, como indígena, viver este período tão delicado?
  7. Você foi afetado de alguma forma? Se sim, quais foram os principais impactos?
  8. Você perdeu algum parente ou conhecido para a Covid-19?
  9. Em sua comunidade, domo tem sido a questão dos rituais?
  10. Para você, que trabalha com pintura e venda de artesanato, como tem sido este período?
  11. Considerando que você se formou agora e tinha muitos planos para a volta à aldeia, como é vivenciar toda esta mudança?

Respostas:

  1.  José Benício Silva Nascimento. 
  2. 27 anos. 
  3.  Povo Pitaguary, da aldeia Monguba, município de Pacatuba (Ceará). 
  4. Sim.
  5. De início, realizamos nosso próprio lockdown, impedindo visitas de não indígenas à área e fazendo higienização dos carros dos moradores. Fizemos campanha de produção de máscaras e arrecadação de cestas básicas para as famílias que tiveram sua obtenção de renda afetada, e também fizemos campanha de conscientização em relação à higiene e ao isolamento social.
  6. É muito preocupante, por ser uma situação atípica e muito nova. Fiquei muito preocupado com as lideranças mais velhas, que são nossos livros vivos.
  7. Com certeza, todos fomos afetados. Além das alterações nas programações tradicionais do povo, também tivemos estudos e projetos adiados.
  8. Perdi alguns amigos, mas sem grau de parentesco.
  9. Não estamos realizando ritual nem toré.
  10. A venda de pintura e artesanato se reduziu; ela está sendo realizada apenas online.
  11. Mudou tudo. Eu ia fazer mestrado na Espanha, agora tenho de esperar o próximo edital.

Entrevistada: Edmaria Braga da Silva

Data: 08/09/2020

Edmaria Braga Oliveira, de 27 anos, é indígena do povo Pitaguary, da aldeia Central, município de Maracanaú (CE). Ela foi uma das contaminadas por Covid-19 em sua comunidade. Para ela, foi uma fase muito delicada, porque, além de ser do grupo de risco, por conta da hipertensão, ela tinha medo de que seus familiares contraíssem o vírus através dela. Quando criança, ela tinha asma; ao contrair o vírus, a asma voltou, e agora ela tem que usar medicamentos e bombinha de ar para conseguir respirar direito. Ela contou também que perdeu pessoas conhecidas para a Covid-19. Edmaria trabalha na Escola Municipal Indígena de Educação Básica do Povo Pitaguary como manipuladora de alimentos. Ela relatou que “as aulas estão suspensas, mas os funcionários estão cumprindo seus horários em horas corridas, com horas a menos”. De acordo com ela, quanto ao funcionamento da escola, não tem havido dificuldades, pois a prefeitura do município, junto à gestão da escola, não deixa a desejar quanto a salário e conscientização. Todos estão tomando as medidas cabíveis, usando máscara e álcool em gel. Em sua comunidade, uma das formas de conscientização e prevenção da população contra a Covid-19 foi a distribuição de material higiênico (álcool em gel e máscaras) e kits de alimentos para as famílias que tiveram sua renda afetada.

Questionário:

  1. Qual seu nome? 
  2. Qual sua idade?
  3. Qual seu povo, aldeia e município?
  4. Na sua aldeia, ocorreu algum caso de Covid-19?
  5. Quais foram os protocolos de segurança que a aldeia adotou?
  6. Como tem sido para você, como indígena, viver este período tão delicado?
  7. Você foi afetado de alguma forma? Se sim, quais foram os principais impactos?
  8. Você perdeu algum parente ou conhecido para a Covid-19?

Como está sendo a pandemia na escola onde você trabalha? 

Respostas via mensagem de texto:

  1.  Edmaria Braga Oliveira.
  2. Tenho 27 anos.
  3.  Sou do povo Pitaguary, da aldeia Central, município de Maracanaú (CE).
  4.  Sim.
  5. Conscientização e distribuição de kits higiênicos e máscaras. 
  6. Eu contraí a Covid-19 e foi uma fase muito delicada, porque, além de ser do grupo de risco, por conta da hipertensão, também tinha medo de que os meus familiares contraíssem o vírus através de mim. 
  7. Sim, o que mais afetou foi que, quando criança, eu tinha asma e, ao contrair o vírus, a asma voltou, e agora tenho que usar bombinhas de ar pra conseguir respirar direito.
  8. Perdi pessoas conhecidas.
  9. Sou manipuladora de alimentos na Escola Municipal Indígena de Educação Básica do Povo Pitaguary. As aulas na escola estão suspensas, mas os funcionários estão cumprindo seus horários em horas corridas (com horas a menos). Quanto ao funcionamento, não está havendo dificuldades, pois a prefeitura do município, junto à gestão da escola em que trabalho, não está deixando a desejar, quanto a salário e conscientização. Tem havido também distribuições de material higiênico, como álcool em gel, máscaras e kits de alimentos.

Entrevistado: José Leandro Vieira de Lima

Data: 08/09/2020

José Leandro Vieira de Lima tem 21 anos, é liderança jovem do povo Pitaguary e mora na aldeia Monguba, no município de Pacatuba (CE). Leandro foi um dos infectados pela Covid-19 em sua comunidade, apresentando como sintomas febre, falta de apetite e dores de cabeça. Ele fez o teste da Covid-19 no polo base da própria aldeia. Leandro conta que seu maior medo era infectar pessoas do grupo de risco de sua própria família. Relata também que sofreu preconceito por uma parcela da comunidade. Sua aldeia tem utilizado como método de conscientização e prevenção da Covid-19 o uso de máscaras e álcool em gel; é proibida a entrada de pessoas de fora nos locais de lazer da comunidade. Para ele, passar pela pandemia está sendo uma experiência muito difícil. Leandro conta que não sabe ao certo quantos casos de Covid-19 ocorreram em sua aldeia, e que não perdeu parentes em razão da pandemia.

Questionário:

  1. Qual seu nome? 
  2. Qual sua idade?
  3. Qual seu povo, aldeia e município?
  4. Na sua aldeia, ocorreu algum caso de Covid-19?
  5. Quais foram os protocolos de segurança que a aldeia adotou?
  6. Como tem sido para você, como indígena, viver este período tão delicado?
  7. Você foi afetado de alguma forma? Se sim, quais foram os principais impactos?
  8. Você perdeu algum parente ou conhecido para a Covid-19?

Respostas via mensagem de texto:

  1. José Leandro Vieira de Lima.
  2. Tenho 21 anos.
  3. Pitaguary, aldeia Monguba, município de Pacatuba (CE).
  4. Sim, não sei ao certo quantos. 
  5. Uso de máscara e proibição da entrada de pessoas de fora nos locais de lazer.
  6. Está sendo uma experiência muito difícil.
  7. Sim, o medo de sair e infectar alguma pessoa da família que seja do grupo de risco.
  8. Não.

Daniela Alves de Araújo

Daniela Alves de Araújo

Daniela Alves de Araújo nasceu em 20 de abril de 1996, na cidade de Euzébio (Ceará). Indígena do povo Jenipapo-Kanindé, residente na aldeia Lagoa Encantada, em Aquiraz, é monitora do Museu Indígena Jenipapo-Kanindé. É graduanda do curso de Museologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde faz parte do Coletivo de Estudantes Indígenas. Foi bolsista do Projeto Mapeamento das Violações aos Direitos Indígenas no Nordeste do Brasil.