Povo Tapeba

Francisca Marciane do Nascimento Menezes -Tapeba

Eu sou Marciane, tenho 28 anos, sou do povo Tapeba, da comunidade Vila dos Cacos, no município de Caucaia [Ceará]. Componho a Articulação das Mulheres Indígenas do Estado do Ceará (Amice) e também faço parte da Federação do Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince). Sou secretária-executiva do Condisi [Conselho Distrital de Saúde Indígena], que atua junto ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e também junto aos conselhos locais. Essa questão do coronavírus, que tem impactado  o mundo, com as populações indígenas não é diferente… Eu costumo dizer que a gente já tinha nossas fragilidades e nossas vulnerabilidades, e acho que isso só se acentuou cada vez mais. Aqui na nossa comunidade, graças a deus, não tivemos nenhum caso. Mas em algumas comunidades tapeba, tivemos casos, tivemos óbitos de parentes, de conhecidos, inclusive na empresa [em que trabalha], um colega de trabalho que era indígena também. 

Os protocolos que a gente utilizou foram tentar conscientizar a comunidade para que pudesse ficar em suas casas, para que pudesse evitar a entrada de estranhos, evitar a entrada de pessoas que não fizessem parte da comunidade. A Fepoince, junto com as organizações indígenas, fez um trabalho brilhante, no sentido de ir buscar apoio das organizações para arrecadar alimento, arrecadar kit de higiene, para dar esse suporte às famílias que deixaram de praticar muitos de seus hábitos de forma coletiva. A caça, a pesca, a coleta de frutos, a derrubada da palha da carnaúba são hábitos da nossa comunidade, também são parte da sua existência. O movimento indígena ajudou muitas de nossas famílias, que perderam o seu ganha-pão, para que pudessem ter suporte e para tentarem passar esta fase tão complicada da forma mais digna possível. 

A  gente sabe que o governo brasileiro diz abertamente que é contra as populações indígenas, isso muito antes da pandemia; com a pandemia, isso só veio a se agravar, com a questão da saúde. A gente veio reivindicando junto ao governo federal e à própria Sesai, para compreenderem quais eram realmente nossos interesses e quais eram as nossas dificuldades. Foi preciso o movimento mostrar também isso. A gente percebe o esforço que o DSEI tem feito para que as coisas possam acontecer. Mas os entraves maiores foram lá na Sesai em Brasília [Distrito Federal], que está ligada ao Ministério da Saúde, ligado ao governo federal. A gente perdeu parentes aqui no nosso povo, inclusive o colega de trabalho, também do povo Tapeba. Então, isso mexeu muito conosco. A gente perdeu lideranças e isso também mexeu muito com a gente. 

Com relação à questão da violência contra a mulher, a gente percebe que esse número tem crescido cada vez mais. Como eu disse, isso já é uma realidade que a gente vivia, uma luta que a gente vem travando, mas, com a pandemia, eu acho que isso só se agravou. Os números mostram isso, e nos territórios indígenas não é diferente. A gente vem lutando para que essas mulheres possam ter suporte e possam denunciar esse tipo de violência. Ainda estamos passando por situações bem complicadas. Mas, juntos, nós aprendemos um pouco a lidar com essa situação. Ainda é muito difícil não participar de um ritual, não estar na coletividade, como a gente tinha o hábito de estar. É muito complicado para a gente… Até para as relações familiares é difícil, porque nós temos o hábito de confraternizar, de abraçar, então fica muito difícil. A gente pensa também nos vários parentes que já se foram por conta desta doença, e a gente tem que usar as armas que a gente tem. A  espiritualidade é uma arma muito forte. [É preciso] Realmente rezar e pedir para os encantados, para o Pai Tupã, para que se possa passar da melhor forma possível, para a gente tirar lições desta situação.

João Kennedy de Lima Oliveira – Tapeba

Sou Kennedy Tapeba, tenho 28 anos, sou do povo Tapeba, do estado do Ceará. Aqui na nossa Terra Indígena (TI) Tapeba, tivemos alguns casos de Covid-19. Por ser uma população grande, é quase impossível estar isolado, por morarmos perto do contexto urbano, dentro do município. Tivemos servidores da saúde contaminados e parentes indígenas de algumas aldeias tapeba também. 

O protocolo é o que a OMS [Organização Mundial da Saúde] orienta, isolamento. A agente indígena de saúde [AIS] orientava a família a ficar em casa e quem tivesse com sintomas fazia o teste. Até o resultado sair, positivo ou negativo, em casos suspeitos, tinha todo esse cuidado de estarem isolados. Os atendimentos no posto [de saúde] ficaram limitados, a gente teve o cuidado de disponibilizar álcool em gel e máscaras, e orientamos a não sair da comunidade. Pedimos que as pessoas tivessem todo o cuidado e respeitassem a quarentena. Essa foi a orientação que procuramos passar para os nossos parentes. 

Enquanto indígena, a gente sente. Eu sou professor indígena. Aquela dinâmica, de estar na escola, em sala de aula com os alunos, a gente não tem mais. Parar de visitar, por exemplo, os anciões da nossa aldeia, não podendo ver meu avô, minha vó… Passar um tempo em isolamento por conta da Covid-19 foi bem complicado no início. Mas a gente vai se adaptando, vamos nos acostumando, já que a gente sabe que é para a proteção tanto dos nossos anciões quanto nossa. A gente entende, mas, para mim, enquanto indígena, foi e ainda está sendo muito difícil este momento. 

A gente espera vencer a Covid-19, seguindo os protocolos da OMS, seguindo todo o protocolo que a nossa equipe de saúde vem colocando. A gente vem seguindo à risca, para não haver muitas perdas neste processo. Mas a gente acaba sendo afetado. Como eu falei, sou professor indígena. Então, a gente acaba sendo afetado de forma direta e indireta, sem poder ter contato com os meus parentes nem sair, como a gente era acostumado, sair para as reuniões. Então, isso acaba afetando diretamente a gente. Esses são os principais impactos. A questão do próprio trabalho, de sair… 

Acho que isso impactou a luta. Por exemplo, a gente vê, enquanto indígena, muita coisa acontecendo, nossas terras correndo risco com pandemia ou sem pandemia, tem processo de reintegração de posse em algumas áreas. Em outros momentos, em outras horas, o que a gente faria? A gente ocuparia a Funai [Fundação Nacional do Índio], a gente cortaria uma BR [rodovia]. Só que tudo isso é aglomeração e a pessoa pode acabar presa. Então, o único meio é a justiça, a gente tomar, fazer os protocolos corretos, de entrar com as ações [judiciais], recorrer, para que não aconteçam situações como essa. 

O impacto maior para nós, enquanto indígenas, é o fato de que a gente está dentro da terra indígena, no meio de uma pandemia, mas isso não empata de os posseiros quererem vir contra nós. Então, a gente tem que estar sempre alerta. Infelizmente, não podemos ir para o confronto direto, temos que nos resguardar, com a saúde, e, por conta da lei, tentar reverter as situações. Tive alguns parentes diagnosticados com Covid-19, mas nenhuma perda, graças a Pai Tupã, a Mãe Tamaí. A gente não teve perda de familiares próximos; alguns conhecidos tiveram perdas, mas parentes próximos, a gente não teve nenhum, graças a Pai Tupã e Mãe Tamaí.

Weber Tapeba

Vídeo Relato de pandemia – Weber Tapeba

A pandemia da Covid-19 ceifou a vida de milhões de pessoas em todo mundo. No Ceará e no Brasil, dados alarmantes se apresentam, com crescimento acentuado de casos confirmados da Covid-19. Enquanto os cientistas não conseguem desenvolver uma vacina capaz de combater a doença com eficiência, o melhor remédio é ficar em casa. Isolamento social é a melhor estratégia de combate e de enfrentamento ao novo coronavírus. Não é momento de relaxar. Por você, por mim e por todos nós: fique em casa.

Rute Morais Souza

Rute Morais Souza

Rute Morais Souza nasceu em 25 de julho de 1997, em Fortaleza (Ceará). É indígena do povo Anacé de Caucaia. Atualmente, é mestranda em Antropologia Iberoamericana na Universidade de Salamanca, na Espanha. Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em sua pesquisa de monografia, estudou a situação do território indígena anacé. É membro da Associação Brasileira de Indígenas Antropóloges (ABIA). Nos anos de 2017 e 2018, foi discente voluntária de iniciação científica no Projeto Mapeamento dos Relatórios de Identificação de Territórios Quilombolas (1988 a 2016). É integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas Étnicas (GETE), da Universidade Federal do Ceará (UFC).