Bloqueio do acesso ao território de origem, às margens do rio São Francisco

Os Xakriabá, conhecidos como os antigos habitantes do vale do São Francisco, são a maior nação indígena do estado de Minas Gerais e umas das maiores do Brasil. O processo de contato com a sociedade não indígena não é muito diferente daquele vivido pelos demais povos indígenas brasileiros, marcados por lutas e derramamento de sangue. O bandeirante Matias Cardoso foi um grande colonizador da região do vale do São Francisco. Após o ano de 1728, recebemos o título de posse de nossas terras, em reconhecimento ao fato de nossos antepassados terem apoiado o Estado na guerra contra os Kayapó, que, segundo a história, também percorreram a região, como demonstram as pinturas rupestres nos paredões do Parque Nacional (Parna) Cavernas do Peruaçu. A partir das décadas de 1960 a 1970, o “desenvolvimento” intensificou a invasão das nossas terras, e os projetos agrícolas na região atraíram grandes fazendeiros das cidades vizinhas.

As terras indígena (TI) Xakriabá e Xakriabá Rancharia estão localizadas em áreas dos municípios de Itacarambi, São João das Missões e Cônego Marinho. O território das duas TIs somadas tem aproximadamente 43.357 hectares e perímetro de 187 quilômetros.

A identidade xakriabá é caracterizada pela mistura de diferentes elementos culturais, dentre os quais se destacam a pintura corporal, assim como os traços da retomada Akwê presentes nos cantos e rituais tradicionais. Essa identidade se faz presente no nome Xakriabá, que, segundo alguns, significa “bom de remo”. Conforme contam, na época do contato inicial com os não indígenas, quando o povo ainda percorria diferentes territórios, desde as margens do rio Tocantins até o São Francisco, só conseguiam atravessar aqueles grandes rios os que fossem “bons de remo”. Em outra versão contada pelos mais velhos, mais recorrente, explica-se que o nome faz referência a um “chá que cria índio”, já que, na língua Akwê, “abá” significa índio.

O povo Xakriabá se autodenomina Akwê Ktabi/Krêka. Tal nome, além de ser compreendido como nome do povo, também  é normalmente utilizado para se referir ao seu idioma originário. Porém, nem todos os povos são reconhecidos pelo modo como verdadeiramente se autodenominam, e sim pelos etnônimos dados por povos vizinhos (ou inimigos do passado) e até mesmo por não indígenas, inclusive por pesquisadores. A população Akwê Ktabi/Krêka é de aproximadamente 12.600 indígenas, distribuídos em 36 diferentes aldeias, três delas em processo de demarcação.

A TI Xakriabá foi homologada em 1987, porém, de acordo o Cacique Xakriabá Domingos Oliveira, por pressão de fazendeiros, boa parte do território permaneceu fora da área demarcada, garantindo-se apenas um terço do território originário. “Eles não levaram em consideração o nosso território ancestral”, afirma o cacique. Em 2003, outra área foi homologada, a TI Xakriabá Rancharia. Juntas, como vimos, essas duas áreas somam 43.357 hectares.

O território dos Xakriabá é região de cerrado, o clima é quente o ano inteiro e a estação chuvosa compreende os meses de outubro e março. Como os Xakriabá criam muitos animais, principalmente gado, e se trata de uma região de clima bastante quente e com pouca chuva, nos anos 2000, o povo decidiu abrir barragens dentro do território, para que assim pudessem armazenar água o ano inteiro para os animais. A vice-liderança da Dazakru Apkrêwakdû (Aldeia Barreiro Preto), seu Manoel Cavalcante Bezerra, conta da necessidade do povo naquele momento: “Foi um tempo em que estava muito seco, a gente via na televisão aquele povo fazendo barragens por causa da seca e conseguiam alimentar o gado, né? Aí a gente queria também, porque os bichos aqui estavam tudo morrendo de sede”. A prefeitura do município de São João das Missões, junto com as famílias, abriu barragens de pequeno porte nos terreno das pessoas que tinham interesse. O número de barragens ficava a critério do beneficiado. O indígena Lorisvaldo Araújo (Lozim), um dos beneficiários no projeto das barragens, conta que, apesar de não ter ocorrido nenhum acidente em sua barragem, ele toma todas as precauções possíveis. “Ninguém nunca se afogou aqui na minha barragem, mas eu conheço gente que já morreu assim. Então, eu já falo para os meus quatros filhos, não deixo eles irem lá de jeito nenhum, eles não sabem nadar, aí a gente fica com medo, né?”

De acordo com o enfermeiro Maciel Xakriabá, de 2006 a 2014, três pessoas morreram afogadas no território, duas delas crianças com idades entre seis e 11 anos. Todos os anos há afogamentos nas barragens, mas não temos registro da totalidade dos casos.

A jovem Juvana Sawidí, estudante de Direito, reflete sobre as consequências de o povo ter aberto as barragens: “Acho que nunca passou pela cabeça de ninguém aqui que essas barragens se tornariam um problema. Ninguém tem culpa, a intenção do povo de início foi boa, mas muita gente já morreu em consequência das barragens”. Juvana também ressalta como a falta de demarcação acarreta o aumento do índice de afogamentos: “Creio que essas mortes poderiam ser evitadas. O território de origem do nosso povo fica às margens do rio São Francisco. Se tivéssemos acesso a ele, não haveria mortes causadas por afogamentos”. De acordo com os entrevistados, se os Xakriabá tivessem acesso ao seu território originário às margens do rio, diversos costumes que perpassam o rio, como, por exemplo, o parto dentro da água – que os não indígenas denominam “parto humanizado” – e  o ritual do furão de orelha, dentre outros costumes que dependem das águas sagradas do rio para serem realizados, poderiam ocorrer. E, sendo assim, como ocorre com todos os outros povos indígenas que vivem do rio, não haveria mais problemas de afogamento. As lideranças também costumam se referir aos jogos indígenas de Minas Gerais. Os Xakriabá são o maior campeão em todas as modalidades, exceto nas de água, como remo e natação.

Assim, o bloqueio do acesso ao rio São Francisco impacta diretamente a vivência do povo nas suas 36 aldeias. É perceptível que tudo que acontece com o povo Xakriabá tem algum tipo de ligação com o seu território de origem, que é de extrema importância e necessidade, já que a preservação de rituais, da identidade e da existência do povo perpassa a área onde se localiza o rio São Francisco, no município de Itacarambi.

Povo(s) impactado(s)Xakriabá
Terra(s) Indígena(s) impactada(s)Xakriabá; Xakriabá Rancharia
EstadoMG
RegiãoNorte
MunicípioSão João das Missões; Itacarambi; Cônego Marinho
Período da violaçãoDe 1987 até hoje (TI Xakriabá) e de 2003 até hoje (TI Xakriabá Rancharia)
Tipo(s) de população Rural
Fonte(s) das informações Facebook
WhatsApp
Outras redes sociais
Outras fontesConversas com indígenas de diversas idades residentes em diferentes aldeias xakriabá
Causa(s) da violação Conflito por terra
Manejo de água
Matérias específicas Água
Terra
Empresa(s) e entidade(s) do governoFundação Nacional do Índio (Funai)
Tipo(s) de financiamento
O estado da mobilização diante da violação Médio (protestos de rua, mobilização visível)
Grupo(s) que se mobiliza(m) Grupos indígenas ou comunidades tradicionais
Forma(s) de mobilizaçãoFechamento da rodovia BR-131 no município de São João das Missões.
Impactos ambientaisVisíveis
Impactos na saúdeVisíveis
Impactos socioeconômicosVisíveis
Data de preenchimento02/12/2019

Flávia Xakriabá

Flávia Xakriabá

Me chamo Flávia Xakriabá, resido na Terra Indígena Xakriabá, na aldeia Barreiro Preto, e sou referência jovem do meu povo. Formada em Agroecologia e Audiovisual, sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Atuo na área de comunicação no movimento indígena nacional e sou uma das coordenadoras da Rádio Xakriabá. Atualmente, também colaboro com a Mídia Índia e assessoro as redes sociais de algumas lideranças do movimento indígena brasileiro.